domingo, 22 de março de 2009

O Círculo e a Reta

E eram tantas emoções e dúvidas ocupando um espaço que antes era vazio - seria peito ou cabeça? -, que pensou que fosse enlouquecer. Os problemas acabam virando angústias com o passar do tempo. Não podia engolir aquilo tudo: Entalaria no esôfago. Tampouco colocar pra fora: Pareceria ridículo demais à sua persona sensata, rígida, controlada. Refletiu: "Talvez, se eu for sincero, talvez se ela souber, toda essa energia aglomerada vai sumir de dentro de mim e sua existência deixará de ser minha responsabilidade." Pronto: Foi saindo tão naturalmente, que nem ele sabia que era capaz de ser tão franco. Afinal, nesse mundo de "faz-de- contas", onde há sempre a desconfiança e o "pé atrás" com as pessoas, quem se atreve a contar verdades tão profundas sobre si mesmo? Existem verdades que desconhecemos de tão íntimas que são. "Mas, e agora?". Não queria esperar uma recompensa nem um castigo, apenas um alívio. Porém, depois de dita a verdade, surgem mais perguntas: É ela! Sua consciência ali, te vigiando, censurando e te sufocando novamente. Dizendo: “Ela deve estar pensando isso...”, “Você devia ter explicado de outra maneira”. “E agora? Será que ela vai reagir?” E nada foi dito. Um abraço caloroso foi a reação dela. Se despediram. Ela deu um sorriso. Ele entrou no elevador e parou de se questionar. Acabou optando pela sabedoria infinita do tempo: Não há opção melhor. E assim, passam-se horas, dias... De vez em quando, batia aquele desconforto de lembrar do que ocorrera, até que sua consciência foi se esquecendo daquele "vexame". Era o "impulso vital" tentando recolocar a vida em ordem. Eis que, um dia, chega uma notícia: A solidão anuncia o vazio e pergunta sobre qual será a próxima chance de estar lançado à ânsia de prazeres, frios na barriga, cheiros e toques, o encanto infantil desnecessário sobre as coisas... Dessas coisas que não questionamos: a tal utópica palavra amor. E bateu um desconforto de ser só... "Seria melhor assistir um filme ou ler um livro?" Não demorou muito a desistir do filme e do livro, acender um cigarro e refletir sobre a vida. É o preço que se paga por viver: Estar sujeito a essas quedas. Ao longo da vida, se tornam rotineiras: Quando não estamos no pedestal, estamos no chão nos recuperando. É compreensível... Ora se ganha, ora se perde. Só que a vontade de estar no topo vira vício e, como todo vício, te leva inconscientemente a buscar a droga. Nessas horas, já não nos importamos muito com os obstáculos, desde que os fins os justifiquem. Um belo dia, como quem não quer nada, surge a tal da droga: Uma possibilidade de amor. O coração palpita e a cabeça lança um olhar desconfiado. Ela diz: "Isso é um círculo vicioso, lembra?"
Droga - Sinceridade - Consciência - Solidão - Vício - Droga.

Mas frágil, a emoção retruca: Dessa vez o círculo se romperá depois da etapa "consciência". Uma vez rompido, o círculo deixa de ser círculo e se torna uma reta. "Reta?" A tal da utopia. Aquilo que consideramos longe do nosso alcance é o que impulsiona os seres à evolução. A irracionalidade, muitas vezes, é mais necessária à vida. É ela que permite a intuição atuar. E a intuição arrisca estando certa sem tomarmos consciência do que é certo.

Beatriz Fernandes.

domingo, 15 de março de 2009

Ces't la femme

25.11.77

Minha querida
Clarice,
Queria apenas dizer-lhe que seu livro A hora da estrela é muito belo e que você é muito amada. Segui seu conselho, comprei roupas claras (de preferência, o branco, você disse) e cortei o cabelo. Acho que recomeço a viver, vamos recomeçar juntas? Se eu for aí passar o Natal com meu irmão, quero te levar um pente (como aquele que te dei, outras cores) e te dar um beijo.
Lygia

Retirado de: http://www.claricelispector.com.br/carta_lygiaFagundes.aspx

quinta-feira, 12 de março de 2009

O Soldado

Surgiu.
Já que não se esperava.

Encontrou.
Já que não se procurava.

Arriscou.
Já que, quando ameaçado,
O instinto não fica parado.

Freiou.
Já que avistou um obstáculo.

E é preciso espaço
Tanto para recuar,
Quanto para prosseguir.

Checou:
Espaço,
Tempo,
Combustível,
Matéria.

Pura estratégia militarista.
Soldado treinado.

Porque,
Tal como na vida
Existe a luta,
Na fantasia,
Resiste a razão.

E se a vida fosse
Um campo de concentração?
O amor seria um campo de batalhas.
A razão seria a guerra.
A emoção, diplomacia.

Já que, se está aí,
Lendo a liberdade,
Dos versos presos
Na in-comum incerteza
De um possível ataque,
Por que não reconhecer
A necessidade
da bandeira branca estender?

Afinal,
A derrota só existe
Quando um sai em desvantagem.

Já que se é,
Logo, se sente.
Já que se sente,
O jeito é seguir em frente.

Já que não é,
Logo, não se sente,
O jeito é recuar,
Deixar morrer,
Infelizmente.

Beatriz Fernandes

terça-feira, 10 de março de 2009

Arnaldo Jabor

Sempre odiei o que a maioria das pessoas fazem com os seus MSN's.Não estou falando desta vez dos emoticons insuportáveis que transformaram a leitura em um jogo de decodificação, mas as declarações de amor, saudades, empolgação traduzidas através do nick.O espaço 'nome' foi criado pela Microsoft para que você digite O NOME que lhe foi dado no batismo.Assim seus amigos aparecem de forma ordenada e você não tem que ficar clicando em cima dos mesmos pra descobrir que 'Vendo Abadá do Chiclete e Ivete' é na verdade Tiago Carvalho, ou 'Ainda te amo Pedro Henrique' é o MSN de Marcela Cordeiro.Mas a melhor parte da brincadeira é que normalmente o nick diz muito sobre o estado de espírito perfil da pessoa. Portanto, toda vez que você encontrar um nick desses por aí, pare para analisar que você já saberá tudo sobre a pessoa...'A-M-I-G-A-S o fim de semana foi perfeito!!!' acabou de entrar. Essa com certeza, assim como as amigas piriguetes (perigosas), terminou o namoro e está encalhadona. Uma semana antes estava com o nick 'O fim de semana promete'. Quer mostrar pro ex e pros peguetes (perigosos) que tem vida própria, mas a única coisa que fez no fim de semana foi encher o rabo de Balalaika, Baikal e Velho Barreiro e beijar umas bocas repetidas.O pior é que você conhece o casal e está no meio desse 'tiroteio', já que o ex dela é também conhecido seu, entra com o nick 'Hoje tem mais balada!', tentando impressionar seus amigos e amigas e as novas presas de sua mira, de que sua vida está mais do que movimentada, além de tentar fazer raiva na ex.'Polly em NY' acabou de entrar. Essa com certeza quer que todos saibam que ela está em uma viagem bacana. Tanto que em breve colocará uma foto da 5ª Avenida no Orkut com a legenda 'Eu em Nova York'. Por que ninguém bota no Orkut foto de uma viagem feita a Praia-Grande - SP ?'Quando Deus te desenhou ele tava namorando' acabou de entrar. Essa pessoa provavelmente não tem nenhuma criatividade, gosto musical e interesse por cultura. Só ouve o que está na moda e mais tocada nas paradas de sucesso. Normalmente coloca trechos como 'Diga que valeuuu' ou 'O Asa Arreia' na época do carnaval. Por que a vida faz isso comigo?' acabou de entrar. Quando essa pessoa entrar bloqueie imediatamente. Está depressiva porque tomou um pé na bunda e irá te chamar pra ficar falando sobre o ex. 'Maria Paula ocupada prá c** ' acabou de entrar. Se está ocupada prá c**, por que entrou cara-pálida? Sempre que vir uma pessoa dessas entrar, puxe papo só pra resenhar; ela não vai resistir à janelinha azul piscando na telinha e vai mandar o trabalho pro espaço. Com certeza.'Paulão, quero você acima de tudo' acabou de entrar. Se ama compre um apartamento e vá morar com ele. Uma dica: Mulher adora disputar com as amigas. Quanto mais você mostrar que o tal do Paulão é tudo de bom, maiores são as chances de você ter o olho furado pelas sua amigas piriguetes (perigosas).'Marizinha no banho' acabou de entrar. Essa não consegue mais desgrudar do MSN. Até quando vai beber água troca seu nick para 'Marizinha bebendo água'. Ganhou do pai um laptop pra usar enquanto estiver no banheiro, mas nunca tem coragem de colocar o nick 'Marizinha matriculando o moleque na natação'.> > > ' < . ººº< . ººº< / @ e $ $ ! - @ >ªªª . >ªªª >' acabou de entrar. Essa aí acha que seu nome é o Código da Vinci pronto a ser decodificado. Cuidado ao conversar: ela pode dizer 'q vc eh mtu déixxx, q gosta di vc mtuXXX, ti mandá um bjuXX'.'Galinha que persegue pato morre afogada' acabou de entrar. Essa ai tomou um zig e está doida pra dar uma coça na piriguete que tá dando em cima do seu ex. Quando está de bem com a vida, costuma usar outros nicks-provérbios de Dalai Lama, Lair de Souza e cia.'VENDO ingressos para a Chopada, Camarote Vivo Festival de Verão, ABADÁ DO EVA, Bonfim Light, bate-volta da vaquejada de Serrinha e LP' acabou de entrar. Essa pessoa está desesperada pra ganhar um dinheiro extra e acha que a janelinha de 200 x 115 pixels que sobe no meu computador é espaço publicitário.'Me pegue pelos cabelos, sinta meu cheiro, me jogue pelo ar, me leve pro seu banheiro...' acabou de entrar. Sempre usa um provérbio, trecho de música ou nick sedutores. Adora usar trechos de funk ou pagode com duplo sentido. Está há 6 meses sem dar um tapa na macaca e está doida prá arrumar alguém pra fazer o servicinho.'Danny Bananinha' acabou de entrar. Quer de qualquer jeito emplacar um apelido para si própria, mas todos insistem em lhe chamar de Melecão, sua alcunha de escola. Adora se comparar a celebridades gostosas, botar fotos tiradas por si mesma no espelho com os peitos saindo da blusa rosa. Quer ser famosa. Mas não chegará nem a figurante do Linha Direta. Bom é isso, se quiserem escrever alguma mensagem, declaração ou qualquer coisa do tipo, tem o campo certo em opções 'digitem uma mensagem pessoal para que seus contatos a vejam' ou melhor, fica bem embaixo do campo do nome!! Vamos facilitar!!!!

domingo, 8 de março de 2009

De "Pequenas Epifanias" - Caio Fernando Abreu

Porque havia o sufocamento daquela espécie de patético simulacro de fantasia matrimonial provisória, a dificuldade de manter um clima feito linha esticada, segura para não arrebentar de súbito, precipitando o equilibrista no vazio mortal. Cheio de carinho, remexeu no doce, sem empurrar o prato. Preferia a fome: só isso. Pelo longo vício da própria fome — e seria um erro, porque saciar a fome poderia trazer, digamos, mais conforto? — ou de pura preguiça de ter que reformular-se inteiro para enfrentar o que chamam de amor, e de repente não tinha gosto?
De onde vem essa iluminação que chamam de amor, e logo depois se contorce, se enleia, se turva toda e ofusca e apaga e acende feito um fio de contato defeituoso, sem nunca voltar àquela primeira iluminação? Espera, vamos conversar, sugeriu sem muito empenho. Tarde demais, porta fechada. Sozinho enfim, podia remexer em discos e livros para decidir sem nenhuma preocupação de harmonia-com-o-gosto-alheio que sempre preferira um Morrison a Manuel Bandeira. Sid Vicious a Puccini. A mosca a Uma janela para o amor, sempre uma vodca a um copo de leite: metal drástico. Era desses caras de barba por fazer que sempre escolherão o risco, o perigo, a insensatez, a insegurança, o precário, a maldição, a noite — a Fome maiúscula. Não a mesa posta e farta, com pratos e panelas a serem lavados na pia cheia de graxa — mas um hambúrguer qualquer para você que escrevo. Mas os escritores são muito cruéis, você me ama pelo que me mata com coca-cola no boteco da esquina, e a vida acontecendo em volta, escrota e nua.Não muito confuso, assim confrontado com sua explícita incapacidade de lidar com. A palavra não vinha. Podia fazer mil coisas a seguir. Mas dentro de qualquer ação, dentes arreganhados, restaria aquela sua profunda incapacidade de lidar com. Um instante antes de bater outra, colocar uma velha Billie Holiday e sentar na máquina para escrever, ainda pensou: gosto tanto de você, baby. Só que os escritores são seres muito cruéis, estão sempre matando a vida à procura de histórias. Você me ama pelo que me mata. E se apunhalo é porque é para você, para você que escrevo — e não entende nada.

O Estado de S. Paulo, 22/4/1987

Mulher, vou dizer quanto eu te amo - Chico Buarque

Mulher, vou dizer quanto eu te amo
Cantando a flor
Que nós plantamos
Que veio a tempo
Nesse tempo que carece
Dum carinho, duma prece
Dum sorriso, dum encanto
Mulher, imagina o nosso espanto
Ao ver a flor
Que cresceu tanto
Pois no silêncio mentiroso
Tão zeloso dos enganos
Há de ser pura
Como o grito mais profano
Como a graça do perdão
E que ela faça vir o dia
Dia a dia mais feliz
E seja da alegria
Sempre uma aprendiz
Eu te repito
Este meu canto de louvor
Ao fruto mais bendito
Desse nosso amor

sábado, 7 de março de 2009

Inútil paisagem - Tom Jobim/Aloysio de Oliveira


Mas pra que

Pra que tanto céu

Pra que tanto mar,

Pra que

De que serve esta onda que quebra

E o vento da tarde

De que serve a tarde

Inútil paisagem

Pode ser

Que não venhas mais

Que não voltes nunca mais

De que servem as flores que nascem

Pelo caminho

Se o meu caminho

Sozinho é nada

É nada

É nada

quinta-feira, 5 de março de 2009

O mar e o ar - Orquestra Imperial



O mar pode nos afogar

Pode nos inundar

Com o seu rosto azulAdicionar vídeo

Porém não consegue nos separar

Porque o amor respira sobre o mar



O ar pode nos ressecar

Pode nos carregar

Com o seu vento sul

Porém não consegue nos apagar

Porque o amor aumenta com o ar



Sempre que estiver à noite a chorar

Saiba que estarei aqui

Seco a água de seu pranto a soprar

Não demoras a sorrir



Se o vento é de levar

O mar é de trazer

De volta o que se vai

E a onda quer devolver

O amor de eu e você




segunda-feira, 2 de março de 2009

Fragmentos disso que chamamos de "minha vida".

Há alguns anos. Deus — ou isso que chamamos assim, tão descuidadamente, de Deus —, enviou-me certo presente ambíguo: uma possibilidade de amor. Ou disso que chamamos, também com descuido e alguma pressa, de amor. E você sabe a que me refiro.Antes que pudesse me assustar e, depois do susto, hesitar entre ir ou não ir, querer ou não querer — eu já estava lá dentro. E estar dentro daquilo era bom. Não me entenda mal — não aconteceu qualquer intimidade dessas que você certamente imagina. Na verdade, não aconteceu quase nada. Dois ou três almoços, uns silêncios. Fragmentos disso que chamamos, com aquele mesmo descuido, de "minha vida". Outros fragmentos, daquela "outra vida". De repente cruzadas ali, por puro mistério, sobre as toalhas brancas e os copos de vinho ou água, entre casquinhas de pão e cinzeiros cheios que os garçons rapidamente esvaziavam para que nos sentíssemos limpos. E nos sentíamos.Por trás do que acontecia, eu redescobria magias sem susto algum. E de repente me sentia protegido, você sabe como: a vida toda, esses pedacinhos desconexos, se armavam de outro jeito, fazendo sentido. Nada de mal me aconteceria, tinha certeza, enquanto estivesse dentro do campo magnético daquela outra pessoa. Os olhos da outra pessoa me olhavam e me reconheciam como outra pessoa, e suavemente faziam perguntas, investigavam terrenos: ah você não come açúcar, ah você não bebe uísque, ah você é do signo de Libra. Traçando esboços, os dois. Tateando traços difusos, vagas promessas.Nunca mais sair do centro daquele espaço para as duras ruas anônimas. Nunca mais sair daquele colo quente que é ter uma face para outra pessoa que também tem uma face para você, no meio da tralha desimportante e sem rosto de cada dia atravancando o coração. Mas no quarto, quinto dia, um trecho obsessivo do conto de Clarice Lispector "Tentação" na cabeça estonteada de encanto: "Mas ambos estavam comprometidos.Era isso — aquela outra vida, inesperadamente misturada à minha, olhando a minha opaca vida com os mesmos olhos atentos com que eu a olhava: uma pequena epifania. Em seguida vieram o tempo, a distância, a poeira soprando. Mas eu trouxe de lá a memória de qualquer coisa macia que tem me alimentado nestes dias seguintes de ausência e fome. Sobretudo à noite, aos domingos. Recuperei um jeito de fumar olhando para trás das janelas, vendo o que ninguém veria.Atrás das janelas, retomo esse momento de mel e sangue que Deus colocou tão rápido, e com tanta delicadeza, frente aos meus olhos há tanto tempo incapazes de ver: uma possibilidade de amor. Curvo a cabeça, agradecido. E se estendo a mão, no meio da poeira de dentro de mim, posso tocar também em outra coisa. Essa pequena epifania.


* Caio Fernando Abreu

Metade

E que a força do medo que tenho
Não me impeça de ver o que anseio.
Que a morte de tudo que acredito
Não me tape os ouvidos e a boca,
Porque metade de mim é o meu grito
e a outra metade é silêncio.
Que a música que ouço ao longe seja linda,
mesmo que triste.
Que a mulher que eu amo
Seja para sempre amada, mesmo que distante.
Porque metade de mim é partida
E a outra metade é saudade.
Que as palavras que falo
não sejam ouvidas como prece
Nem repetidas com fervor,
Apenas respeitadas
Como a única coisa que resta
a um homem inundado de sentimento,
Porque metade de mim é o que ouço,
Mas a outra metade é o que calo.
Que essa minha vontade de ir embora
Se transforme na calma
e na paz que eu mereço.
Que essa tensão que me corrói por dentro
seja um dia recompensada.
Porque metade de mim é a lembrança do que fui
e a outra metade é um vulcão.
Que o medo da solidão se afaste!
Que conviva comigo mesmo
E se transforme ao menos suportável.
Que o espelho reflita em meu rosto
um doce sorriso que me lembro
ter dado na infância.
Porque metade de mim é a lembrança do que fui;
e a outra metade não sei.
Que não seja preciso
mais do que uma simples alegria
para me fazer aquietar o espírito.
E que o teu silêncio me fale cada vez mais.
Porque metade de mim é abrigo,
Mas a outra metade é cansaço.
Que a arte nos aponte uma resposta,
Mesmo que ela não saiba
E que ninguém a tente complicar,
Porque é preciso simplicidade
para fazê-la florescer.
Porque metade de mim é a platéia,
e a outra metade é canção.
E que a minha loucura seja perdoada,
Porque metade de mim é amor
e a outra metade também.
Oswaldo Montenegro.