E eram tantas emoções e dúvidas ocupando um espaço que antes era vazio - seria peito ou cabeça? -, que pensou que fosse enlouquecer. Os problemas acabam virando angústias com o passar do tempo. Não podia engolir aquilo tudo: Entalaria no esôfago. Tampouco colocar pra fora: Pareceria ridículo demais à sua persona sensata, rígida, controlada. Refletiu: "Talvez, se eu for sincero, talvez se ela souber, toda essa energia aglomerada vai sumir de dentro de mim e sua existência deixará de ser minha responsabilidade." Pronto: Foi saindo tão naturalmente, que nem ele sabia que era capaz de ser tão franco. Afinal, nesse mundo de "faz-de- contas", onde há sempre a desconfiança e o "pé atrás" com as pessoas, quem se atreve a contar verdades tão profundas sobre si mesmo? Existem verdades que desconhecemos de tão íntimas que são. "Mas, e agora?". Não queria esperar uma recompensa nem um castigo, apenas um alívio. Porém, depois de dita a verdade, surgem mais perguntas: É ela! Sua consciência ali, te vigiando, censurando e te sufocando novamente. Dizendo: “Ela deve estar pensando isso...”, “Você devia ter explicado de outra maneira”. “E agora? Será que ela vai reagir?” E nada foi dito. Um abraço caloroso foi a reação dela. Se despediram. Ela deu um sorriso. Ele entrou no elevador e parou de se questionar. Acabou optando pela sabedoria infinita do tempo: Não há opção melhor. E assim, passam-se horas, dias... De vez em quando, batia aquele desconforto de lembrar do que ocorrera, até que sua consciência foi se esquecendo daquele "vexame". Era o "impulso vital" tentando recolocar a vida em ordem. Eis que, um dia, chega uma notícia: A solidão anuncia o vazio e pergunta sobre qual será a próxima chance de estar lançado à ânsia de prazeres, frios na barriga, cheiros e toques, o encanto infantil desnecessário sobre as coisas... Dessas coisas que não questionamos: a tal utópica palavra amor. E bateu um desconforto de ser só... "Seria melhor assistir um filme ou ler um livro?" Não demorou muito a desistir do filme e do livro, acender um cigarro e refletir sobre a vida. É o preço que se paga por viver: Estar sujeito a essas quedas. Ao longo da vida, se tornam rotineiras: Quando não estamos no pedestal, estamos no chão nos recuperando. É compreensível... Ora se ganha, ora se perde. Só que a vontade de estar no topo vira vício e, como todo vício, te leva inconscientemente a buscar a droga. Nessas horas, já não nos importamos muito com os obstáculos, desde que os fins os justifiquem. Um belo dia, como quem não quer nada, surge a tal da droga: Uma possibilidade de amor. O coração palpita e a cabeça lança um olhar desconfiado. Ela diz: "Isso é um círculo vicioso, lembra?"
Droga - Sinceridade - Consciência - Solidão - Vício - Droga.
Mas frágil, a emoção retruca: Dessa vez o círculo se romperá depois da etapa "consciência". Uma vez rompido, o círculo deixa de ser círculo e se torna uma reta. "Reta?" A tal da utopia. Aquilo que consideramos longe do nosso alcance é o que impulsiona os seres à evolução. A irracionalidade, muitas vezes, é mais necessária à vida. É ela que permite a intuição atuar. E a intuição arrisca estando certa sem tomarmos consciência do que é certo.
Beatriz Fernandes.
A vida é uma brasa, mora?
Há 12 anos
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